Do sacerdote celebrante a uma assembleia sacerdotal (O laicato na Igreja e no mundo 3)

30 de Noviembre de 2018

[Por: Agenor Brighenti]




Uma das grandes mudanças do Vaticano II está campo da liturgia. Não se trata apenas de uma “renovação”, mas de verdadeira “reforma”. A Constituição Sacrossanctum Concilium, logo no primeiro capítulo apresenta - “Os princípios gerais da reforma e o incremento da Liturgia”. 

 

O desejo de uma reforma da Igreja, incluída a liturgia, vinha de longe. Desde o século VIII, dado o distanciamento gradativo do modo como a Igreja primitiva viveu a fé cristã, havia um movimento de “volta às fontes” (ad rimini fontes). A inserção da Igreja na cultura helênica e sua estreita ligação com o império romano tinham introduzido muito do paganismo no cristianismo. O movimento começou por volta de 783, quando o imperador Carlos Magno uniformizou a liturgia em todo o império, nos moldes da cultura franco-germânica. 

 

A descaracterização da liturgia cristã

 

Entretanto, a descaracterização da liturgia da Igreja primitiva tinha começado ainda no século IV, com a passagem: das pequenas comunidades com celebrações nas casas, para celebrações massivas, em basílicas; da assembleia celebrante, ao padre como único ator da liturgia, rezando em voz-baixa e de costas para o povo; da celebração eucarística como ceia, ao redor de uma mesa, à missa como sacrifício, oferecido pelo sacerdote no altar; da simplicidade das celebrações, aos ritos com os esplendores da corte imperial; das vestes do cotidiano, a ministros do altar revestidos das honras e indumentárias típicas do altos mandatários do império. 

 

Além disso, a reforma litúrgica promovida pelo imperador Carlos Magno, no século VIII, havia introduzido no cristianismo a mentalidade religiosa pagã dos povos franco-germânicos: em lugar da confiança num Deus amoroso, o pavor diante da divindade; em lugar de um Deus que tem alegria em perdoar, a um deus vingador e uma escrupulosa consciência do pecado, acompanhada do sentimento de culpa; enfim, em lugar da aspiração pela vida eterna em Deus, a angústia diante da morte e do juízo iminente. 

 

Com isso, a missa deixou de ser um ato comunitário, para converter-se numa devoção privada do sacerdote e de cada um dos fiéis. O sentido pascal da celebração litúrgica é deslocado para devocionismos sentimentais de meditação da paixão de Cristo. Enquanto o padre, lá no altar distante, reza a missa de costas para o povo, os fiéis se entretém com suas devoções particulares, em torno aos santos. A própria comunhão é substituída pela “adoração da hóstia” e a festa de Corpus Christi se converte na festa mais importante do ano litúrgico, superior à Páscoa. 

 

A Reforma protestante e a Contra-reforma de Trento

 

No século XVI, surgiu uma nova onda de clamores por uma reforma da Igreja. O movimento mais contundente e conhecido foi o movimento de Lutero, que culminou na separação com a Igreja de Roma. No campo da liturgia, os reformadores reivindicam, entre outros: celebrar na língua do povo, a participação de toda a assembleia, a recitação da oração eucarística em voz alta, a comunhão sob as duas espécies, comungar durante a missa, enfim, a celebração eucarística como ceia e não como sacrifício.

 

A Contra-reforma de Trento buscou corrigir muitos abusos, mas não acolheu as reivindicações dos reformadores: continuou a assembleia assistindo à celebração, a obrigatoriedade do latim, o padre rezando em voz baixa de costas para o povo e a comunhão sob uma única espécie. E para marcar a diferença com os protestantes, acentuou-se o caráter sacrificial da missa, a devoção aos santos, em especial a Maria, e a exclusividade da presença real de Jesus nas espécies consagradas. 

 

A reforma litúrgica do Vaticano II

 

Somente quase quinhentos anos depois, o Concílio Vaticano II, que deveria ter acontecido em Trento, irá acolher as principais reivindicações dos reformadores e fazer uma profunda reforma da Igreja, em todos os campos, a começar pela Liturgia. 

 

Para o Vaticano II, dado que pelo batismo o povo de Deus, como um todo, é um povo profético, sacerdotal e régio, na liturgia, o padre preside uma assembleia toda ela celebrante. Consequentemente, o protagonista da celebração litúrgica não é o padre, mas   a assembleia. Por isso o povo passa a rodear o altar e, o padre, a presidir a assembleia celebrante, de frente para o povo, dialogando com ele, em sua língua. O padre deixa de ser chamado ‘sacerdote’, pois preside uma assembleia toda ela sacerdotal. O coral ou um grupo de canto que canta sozinho perde seu sentido. Para aproximar o presidente da celebração da assembleia, se simplifica as vestes litúrgicas e se supera o caráter pomposo e suntuoso da liturgia, pois o rito quanto mais simples, mais se parece com o modo discreto de Deus se comunicar.  

 

Para o Concílio, a presença real de Cristo na liturgia não está só nas espécies consagradas do pão e do vinho, mas também na assembleia reunida, na Palavra proclamada e no presidente da celebração.  Daí a importância da Liturgia da Palavra, que também é celebração do mistério pascal. A celebração eucarística é antes de tudo banquete, que faz memória do único sacrifício de Cristo, através de uma ceia. Por isso, o rito eucarístico é celebrado na “mesa do altar”, sobre a qual as espécies consagradas são mais “alimento e bebida” do que “corpo e sangue”. E toda a assembleia é convidada a comungar sob as duas espécies. 

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